A Transparência do Ser
Da Angústia Neoliberal à Plenitude de Śūnyatā
O niilismo tecnocientífico não nasce da ausência de sentido, mas de uma leitura empobrecida da ausência de fundamentos metafísicos. Ao confundir abertura ontológica com esterilidade, ele reduz a existência a funcionamento: sistemas eficientes, corpos produtivos, subjetividades mensuráveis. A vida continua operando, mas já não comparece como experiência. O vazio, interpretado como falha, converte-se em angústia — não porque nada exista, mas porque tudo passa a existir sem espessura.
Essa angústia é intensificada pela racionalidade neoliberal, que não se limita a organizar mercados, mas produz formas de subjetividade. O indivíduo é interpelado como um “eu-empresa”, responsável por gerir a si mesmo como capital simbólico em permanente valorização. Nesse regime, o outro deixa de ser condição relacional e passa a figurar como métrica, comparação ou ameaça difusa. A solidão não é um acidente do sistema: é um de seus pré-requisitos funcionais.
É nesse ponto que a sabedoria de Śūnyatā e a psicologia social introduzem uma inflexão decisiva. Ao esvaziar a noção de um eu substancial e autônomo, elas não conduzem ao niilismo, mas à inteligibilidade da interdependência. O sujeito revela-se como processo: um nó dinâmico de relações históricas, linguísticas, afetivas e biológicas. Sob essa perspectiva, a obsessão pelo sucesso individual já não pode ser lida como virtude, mas como patologia lógica — o esforço contínuo de sustentar uma identidade isolada em um mundo que jamais operou segundo esse princípio.
A vacuidade deixa, assim, de ser interpretada como negação da existência e passa a ser reconhecida como sua condição de possibilidade. É precisamente porque não há um eu fechado que a compaixão se torna inteligível e não moralista. A ética não se impõe como dever externo nem como ideal abstrato: ela emerge como consequência direta de uma ontologia relacional. Agir em favor do coletivo não é sacrifício, mas alinhamento com a própria estrutura do real.
Nesse horizonte, a felicidade não pode mais ser concebida como mercadoria subjetiva ou conquista privada. Ela se manifesta como a harmonia funcional de uma rede viva: um estado no qual o florescer singular não concorre com o todo, mas o sustenta. O que se abandona não é o indivíduo, mas a ficção de que ele poderia existir — e prosperar — como uma entidade separada da trama que o constitui.


